PECADOS ÍNTIMOS

 

Talvez o único grave delito do filme Pecados Íntimos esteja no descabido título que lhe deram na Língua Portuguesa. Little Children, seu nome em inglês seria na tradução literal “Crianças Pequenas”. Reside aí um dos grandes segredos desse longa do fantástico diretor Todd Field. A história em si não é extraordinária, mas a forma sutil que é feita a sua leitura nos remete a uma espécie de Beleza Americana revisitada.

Eis o enredo: Sarah Pierce (Kate Winslet) é uma jovem acadêmica na inatividade, casada com Richard (Gregg Edelman), um viciado em pornografia digital. Sarah deixou a empolgante vida acadêmica para mergulhar de cabeça na tarefa de ser uma dona de casa exemplar. Para isso dedica-se a levar sua filhinha Lucy (Sadie Goldstein) regularmente ao playground do bairro. Brad Adamson (Patrick Wilson) é um formado em Direito, que está tentando (sem louvor) passar no exame da Ordem. Ele é casado com uma bela produtora de documentários, que banca financeiramente a casa. Todos os dias, Brad sai à noite para estudar na Biblioteca, mas acaba se distraindo com alguns adolescentes skatistas. Brad possivelmente sonha ser um deles, ter talvez a mesma idade e não ser o que acabou se transformando: em um marido dependente do bolso da mulher, um profissional abortado, um fracassado, que cresceu de repente. Sua vida tem um leve consolo: todos os dias, leva o filho para balançar no playground do bairro. Brad não balança ali o seu filho, é a criança que ele foi um dia que balança.

A vida do pacato bairro é abalada com a chegada de Ronnie ( interpretado por Jackie Earle Haley), um recém saído da cadeia, condenado por pedofilia. Ronnie é de longe o melhor personagem do filme. Mas não é a única criança pequena da história. Não por acaso o ponto decisivo do filme se passa no playground, pequena versão do paraíso pela ótica infantil. Lá, o mundo de Brad e de Sarah se cruzam. Brad todos os dias está no parquinho. Três típicas donas de casa ficam suspirando, desejando e amando-o no silêncio do anonimato. Elas apelidaram-no de “Rei do baile”. Para elas ele não tem nome é apenas o desejo secreto do trio. Um ser a ser devorado em segredo, em um plano espiritual, longe dos banquetes carnais. Sarah nunca se mistura com as senhoras. Ela sente-se exilada, um ser estranho em seu próprio corpo, de esposa frustrada, de mãe ausente, de bem comportada dona-de-casa. Sarah queria ser dona do mundo, de um mundo povoado por seres diferentes do que era obrigada a engolir sem mastigar.

Quando Sarah se dispõe a descobrir o nome do “Rei do Baile”, ela acaba conseguindo em uma brincadeira mais que isso. Forja um abraço e um beijo, motivo pelo qual foi excomungada da vida das três senhoras. Sarah tocou em um objeto sagrado, profanou carnalmente o que para elas era apenas uma versão que passeia de uma divindade, algo que era para ser venerado, mas ao chegar em casa, não teria grande valia. Brad era para elas um deus a ser adorado apenas no templo, no santo dos santos do playground.

A partir do encontro entre os dois dublês de “donos-de-casa”, a história passa a ser guiada para o plano das execuções. Sarah e Brad, infelizes para sempre em seus casamentos e com a missão de distrair seus rebentos, passam a ser encontrar frequentemente em clubes, parques, e afins. Duas crianças pequenas com seus filhos, brincando de se encontrar, de fantasiar um mundo esquecido em algum lugar bem próximo, deposto das suas vidas por talvez, uma promessa, um eufórico momento de decisão.

Não é preciso ser gênio para concluir que Sarah e Brad acabam brincando de coisas proibidas e cada vez mais sentem-se bem acomodados, abrigados nessa aventura. Quando os dois pombinhos nos concedem uma licença poética, presenciamos a cena mais impressionante do filme, quando o terrível e odiado Ronnie resolve se refrescar em um dia de calor no clube do bairro. Devidamente equipado com aparelhos de mergulho, o pedófilo mergulha na piscina e fica de lá, seguro em seu abrigo, observando as pernas das crianças. Ele era ali um tubarão em uma lagoa de peixinhos. Mas Ronnie não podia se alimentar, era apenas um cão penitente, sem a esperança de qualquer migalha. Quando alguém reconhece o temível pecador, o cube entra em erupção, os pais retiram suas crianças rapidamente (e conferem se está faltando algum pedaço). Ronnie fica excluído, sozinho como uma idéia a ser esquecida, estranho como um tumor em um corpo sadio. Os guardas o retiram da água. Pronto. O monstro estava fora de combate. As crianças podiam pular de volta na piscina e nadarem felizes. Conheçamos Ronnie. Um sujeito cinqüentão, que tem as crianças como bem-aventuradas no mais amplo sentido do verbo amar. Ele mora com sua mãe, uma idosa super protetora, a única a amá-lo e protege-lo contra o ódio de todos os seres que o rodeiam. Ronnie é a criança mais frágil da história. 

Como dois adolescentes, Sarah e Brad bolam um plano de fuga. Como dois adolescentes, vêm seus intentos falharem. O desfecho do filme está longe de ser uma lição de moral. Aos conservadores de plantão que respiraram aliviados quando a ordem e os bons costumes foram restabelecidos, um aviso: essa é uma história de crianças pequenas, que não conseguiriam viver longe de casa. Todd Field não quis oferecer um final politicamente correto. Ele foi apenas honesto.

Dor amor

 

O amor não abre portas

Porque suas chaves são todas tortas

O amor quando vem lento

É sempre mais rápido que o vento.

 

O amor que sinto é meio parente

Do amor de toda gente

Diferente apenas no sotaque de cada dor.

 

O amor quando chega

Traz um buquê de flor

E quando se vai

Deixa sempre uma dor

Como pretexto para voltar.

 

Vou requerer um decreto

Exigindo que se retirem

Todas as palavras que contenham dor.

 

Computador ventilador aspirador

Triturador elevador etc.ador.

 

A dor é sobrena

Sobrenomeia somente o amor.

 

 

 

RESUMO (ESCOLAR) DO FILME “EM NOME DE DEUS

 

Obra-prima do diretor Clive Donner, o filme retrata a interferência da Igreja Católica sobre os costumes da sociedade. A historia se passa na França do século XII, totalmente sob o jugo da religião.

Tendo como pano de fundo uma sociedade, que se divide entre o sagrado e o profano, mas encobrindo o mundano com os mantos da hipocrisia. Sacerdotes corruptos, que negociam objetos comuns como sacros. Verdades pré-estabelecidas e blindadas do questionamento faziam parte da vida de uma Paris, ainda agropastoril.

É nesse ambiente que Heloise, jovem questionadora e ex-noviça, que mora com seu tio cônego, conhece Abelard, jovem filósofo, tido como um dos grandes professores de teologia de Paris. Abelard tem o apoio dos cardeais, que vêem nele uma grande promessa para ministrar o conhecimento e tem também o entusiasmo de seus alunos, que o veneram pelo idealismo, sabedoria e forma de expor e debater as verdades bíblicas.

Ficando responsável pela educação de Heloise, Abelard logo se encanta com a beleza e a aguçada inteligência da moça. Ela já havia se encantado com o mestre desde o início. Juntos travam debates interessantes, sempre pondo em dúvida as inabaláveis verdades religiosas. Abelard, como todos os professores de teologia da época, tem um voto de castidade, como se fosse um padre. Mantém essa castidade como se fosse um troféu raro. Mas diante da exuberância de Heloise, ele deixa cair por terra esse fardo. Entrega-se de corpo e alma ao amor carnal.

Para Heloise, o amor deles fala mais alto e não se sente culpada. O mesmo não sucede a Abelard, que se sente atormentado e portador de graves pecados. Ele tenta resistir e sufocar esse sentimento, mas graças à força de Heloise, decidem deixar que o amor os consuma.

O tio cônego de Heloise descobre o romance, surpreendendo o casal na cama. A partir daí, um verdadeiro calvário passa a fazer parte da vida dos dois amantes. Enfrentam todas as adversidades possíveis para viver o seu amor. Heloise descobre-se grávida. Abelard a envia ate sua irmã para que possa ter a criança em paz.

O cônego manda castrar Abelard. A partir daí, instala-se no coração do professor o sentimento de justiça feita. Para ele, Deus o castigou pelo seu pecado. Entrega-se a Deus e vai tomar conta de uma comunidade. Heloise torna-se freira. Continuam se amando, embora não consigam viver esse amor. Acabam juntos, uma amor diferente, não-carnal.

Abelard e Heloise juntos e com o filho, é um sopapo, um solavanco sutil e agressivo ao mesmo tempo na hipócrita sociedade francesa, tão apegada a valores e ética. Mesmo que isso custe a felicidade, a satisfação e a vida de pessoas, que nada querem, alem de viver, acertando e errando, mas não fazendo da existência humana um constante tribunal. Polêmico e chocante, o filme focaliza as cenas fortes, talvez para que o expectador, assustado possa ensaiar questionamentos, ou muito assustado, classificar como aberração. Impossível é ficar indiferente e sem torcer por qualquer um dos lados: a dor, fé absolutista ou o do amor, mesmo que rebelde.

 

O homem sem celular

 

Desconfio que sou uma pedra no caminho da estatística sobre telefonia móvel no Brasil. Os jornais anunciam com festa que o dia das mães impulsionou as vendas de celulares no mês de maio.  O ótimo desempenho nas vendas, além de deixar as mamães e os vendedores mais felizes, fez o país contabilizar agora 105,09 milhões de telefones móveis.

Confesso que continuo primitivo, resolvendo talvez por birra, não aderir ao uso do celular. Já faço parte de uma exilada minoria. Talvez o erro esteja na pouca criatividade dos comerciais de telefones celulares na televisão. Talvez o erro esteja na minha necessidade de não ouvir vozes me incomodando nos meus momentos de homem à paisana. Acredito que sou um inimigo da telefonia, um contraventor social e tecnológico. Antes que os desavisados arrisquem um palpite, adianto que a minha heróica resistência nada tem a ver com romantismo. Tem a ver com aversão a algo. Talvez eu me torne no único cidadão brasileiro a não ter celular no ano 2011, por exemplo. Possivelmente me tornarei alvo solitário das campanhas publicitárias da Vivo, da Tim ou de coisa que os valha. Cientistas poderão estudar meu comportamento, catalogando-me como um elo entre o homem primitivo e o pós-homem. Estarei pronto para ser esmiuçado, para ser estudado e explorado pela mídia.

De todas as pessoas que conheço sou a única a não ter celular. Vai ver eu sou um homem do passado, que foi lançado por acidente no admirável mundo novo. Vai ver eu sou um chato que não quer ser incomodado no seu refúgio secreto do ócio.

 

 

SOBRE A NOITE, AVIÕES

 

         Sou um cidadão que ama com suave eloqüência a noite. Nunca fui um partidário dos dias ensolarados. Sempre preferi os nublados. Acho a tarde um tanto melancólica e, no caso da tarde brasileira, anti-romântica. Sou um cidadão noturno, não desses que se embriagam com o pólen das concessões que o período produz em larga escala. Sou um boêmio doméstico e abstêmio. Proporciona-me imenso prazer o clima brando e o silêncio de faca que emanam da noite. É durante a noite que as almas vão a bailes e sentem-se livres para segredar.

         Numa noite dessas, deparei com um carrossel de estrelas. Reside nelas segredos que apenas eu e a minha amada Beliane partilhamos. Entre as luzes estelares, surgiu, partindo o céu em metáfora algo não tão sublime, embora que sereno. Um avião observado de longe sabe ser sereno e sutil. Tem o dom de encantar. Em nada se parece com o avião que parte ou que chega. A grande graça do avião é o seu momento de vôo, quando ele é inalcançável e místico. É este o momento da verdade para o avião.

         Confesso que quase sonhei em um dia estar a bordo. Eu e a minha amada, a caminho de alguma deserta civilização, onde homens, mulheres e cegonhas possam discutir ao som dos Beatles e observar uma coreografia de borboletas. Re-confesso, e com rápida timidez, que ainda não sou muito afeito a voar. As minhas asas devem ter sido podadas no mesmo instante que os meus cordões umbilicais. O meu fascínio pela ave de metal é meramente visual. Cada qual fazendo a sua função. Ele, a de voar e transportar destinos. Eu, a de humilde observador, oferecendo meu apoio moral.

         Por alguns instantes fui dono de uma beleza descomunal. Possuí dentro do meu quintal aquela paisagem de estrelas e o avião, a desfilar dentro do meu campo visual, como um objeto obediente ao gosto de seu dono. Não julgava haver pessoas dentro dele. Para mim, era apenas um avião e,  santa imaginação, era meu, só meu. O meu sentido de propriedade não era latifundiário. A minha posse despertou em mim o dom de partilhar com as estrelas e com as almas desencontradas aquele singelo brinquedo.

         Anima-me a idéia de imaginar que não estou sozinho dentro da minha noite. E ao crer que sobre a minha ecumênica cabeça estão pessoas, em algumas ocasiões, de diferentes nacionalidades, credos e instintos. Conforta-me a idéia de que lá em cima, do plástico e vertical horizonte noturno há um croata ou um macedônio indivíduo que olha para baixo e vê apenas uma escuridão, mas dentro dela imagina que há alguém sendo solidário com a sua vida. Imagina que há um ser humano, que ainda se encanta com a simplicidade dessa aérea aventura. Encanta-se que quase chora e quase deseja poder abraçar no peito esses irmãos.

A FOME

 

A faca corta ao meio o assunto.

Na superfície da mesa

Quatro olhos celebram a esperança

 

Nasce um herói a cada semana.

A cabeça encolhe

Mas os olhos sonham com o McDonald´s.

 

A fome aposta na didática.

A realidade aposta no futebol.

A vida se disfarça de bailarina.

O destino risca um mapa.

O estômago maratoneia uma ginástica.

A dinastia do sonho esquece-se

Do domingo ao meio-dia.

 

Na janela do quarto uma oração.

Nos lábios um concerto triste

Lembrando uma anticanção.

No rádio a alegria convence.

A feira se disfarça de espera

E dança um xote-tango americano.

Na TV o show disfarça o momento.

No calendário uma conspiração.

No repouso dos olhos uma vingança.

Na dor um sorriso interrompe o ritual.

Na sina um sol interrompe a realidade.

 

A paisagem do quadro pendurado na parede

Parece mais bela pela manhã.

 

ENTREVISTA COM A CANTORA CLÉO BARRETO

 

Dona de uma bela voz e de uma grande presença de palco a cantora Cléo Barreto tem encantado diversas platéias no Estado, principalmente em festas de pecuária. Aos 32 anos, Cléo está prestes a dar uma guinada na sua carreira: entra este mês em estúdio para gravar seu primeiro CD completo ( e acústico). De Goiânia, via orkut, ela me concedeu a seguinte entrevista:

 

Você acredita que a sua carreira musical tomou o rumo que você esperava ou ainda há um caminho novo a ser percorrido?
Bom, a minha carreira caminhou para o amadurecimento, a segurança, e o mais importante: na hora certa. Estou exatamente onde queria estar. Este mês entrarei em estúdio para gravar meu CD, que terá os compositores que sonhei, como Nildomar Dantas, Joel marques... Será um CD acústico, com muito mais emoção e segurança. Não faço grandes planos para o futuro, deixo acontecer, trabalho, mostro a qualidade e espero a resposta do público, que tem sido sempre positiva. Tenho uma cumplicidade muito grande com meu público, gosto de saber sempre o que ele gostaria de me ouvir cantando. Por esse motivo as coisas têm dado tão certo para mim.

 

Como está a gestação do CD?

Meu CD está na reta final. O repertorio é o sertanejo romântico, com um toque country. Por enquanto, ainda não decidimos, se faremos a distribuição pela gravadora ou de forma independente. Será o que valer mais a pena. Gravadora demora muito pra sair. O independente tem a vantagem de ser mais rápido.

Quais foram os momentos mais especiais da sua carreira?

Nossa! Tive vários. O mais importânte foi o primeiro show da minha vida, em 2001, no palco principal da pecuária de Goiânia. Foi um sonho! Um público lindo de oitenta mil pessoas. Fiz a abertura do show da dupla sertaneja Chrystian e Ralf. Lindo! Lindo! Então,  todos os shows, têm uma importância muito grande, porque nenhum show será igual ao outro.Cada um tem sua beleza e emoção diferente.

Como foi o início da sua carreira? Quem foram seus maiores incentivadores?

Bom, o inicio de minha carreira foi bem interessante. Estava cantando entre amigos e nem imaginava que estava sendo observada por um produtor de São Paulo, que também era apresentador de TV. Ele gostou do meu trabalho e me incentivou a gravar um CD. Graças a esse incentivo, gravei um mix e deu muito certo. Isso aconteceu em 2000 e em seguida, no mesmo ano já fiz a Pecuária de Goiânia. E graças a Deus nunca mais parei. É claro que há um período em que é preciso dar uma paradinha para preparar o novo trabalho, pra voltar com tudo. É só aguardar que está ficando belíssimo.

 

Conheça mais da cantora: http://www.radioetvsombrasil.com.br/cleobarreto

O MEDO

Mais utilizado ultimamente do que o amor e a paixão, o sentimento que vem dominando o coração do brasileiro moderno chama-se medo. Vivemos todos com medo. Em maior escala ou de forma light, o medo tem sido responsável pela nossa agenda de cada dia.

A violência se apresenta para nós de forma tão palpável que sugiro ao presidente Lula que crie o Ministério do Medo. Já que no Brasil existem os ministérios da Cultura, Educação, Saúde e Justiça, como se explica a ausência do Ministério do Medo?

Na bandeira do Brasil, sugiro que coloquem Ordem e Medo, ou Medo e Progresso. O medo é indispensável. Temos medo de sair das nossas casas porque os bandidos estão à espreita com suas armas matrixianas. A única organização que funciona regularmente no País é a do crime. Aliás, o crime organizado brasileiro nos alça à condição de potência mundial. Somos potência mundial do crime. Só não nos orgulhamos desse status porque sentimos medo.

Se a seleção é a pátria de chuteiras, Nelson Rodrigues que me perdoe, somos a pátria de medrosos. Entupimos nosso coração com o eterno sentimento que nos paralisa a vida e os gestos. O trânsito paulista e o carioca disputam entre si quem mata mais. São Paulo reclama a quantidade bruta. O Rio exige a proporção. Temos medo de morrer atropelados. As estatísticas não mentem. Acreditamos como loucos nos números. A chance de morrermos no asfalto é maior do que de um palestino ser colhido por uma bomba israelense, ou vice-versa.

Felizmente ainda não temos os homens-bomba. Acho que o medo impede-nos dessa invenção da tecnologia moderna. Elegemos o Lula, mas só na quarta eleição. Nas três primeiras, ficamos vigiando se ele realmente comia criancinhas. Não comia. Mas precaução nunca é demais. Mesmo assim, a barba de Lula assusta. O nosso medo só nos permitiu eleger o Lula depois que a sua barba ficou branca. Há em nós uma ternura de filho para com os homens de barba branca. E morremos de medo dos homens de barba negra.

Trancados em nossas casas, ligamos a televisão e descontamos todo o nosso medo em uma pseudo-euforia. Antes, porém, conferimos se o cachorro está solto e as portas estão trancadas. Na TV, assistimos extasiados ao espetáculo da violência urbana. O Rio é uma Hollywood brasileira. Nossos bandidos são mais originais. Mudamos de canal e São Paulo nos oferta sua vaidade. Pequenos roubos no café da manhã, crimes de trânsito na almoço e seqüestros e chacinas na janta. Na hora de dormir, um pequeno resumo acompanha o nosso chá. Sentimos-nos heróis dentro de nossas casas, mesmo que as duplicatas estejam roendo o nosso pijama.

O medo da recessão caminha no meio do nosso travesseiro. A crise do petróleo, o charme da bolsa, a aflição do ebola africano, a pneumonia asiática, tudo se mistura na nossa cabeça como uma grande música. Não gememos porque o nosso medo pode acordar novas dores. Nunca fazemos check-up médico, porque trememos de medo do resultado do exame.

- É batata! É fazer e dar alguma doença.

Nos escondemos sob a capa nova do nosso medo e nos sentimos abraçados por uma mão misteriosa. Não muito misteriosa, porque o nosso medo não nos permite estranha intimidade.

Além das pessoas que matam, temos também medo das pessoas que morrem. O nosso medo é o único sentimento que não respeita o plano existencial. A lei do nosso medo excede a métrica das possibilidades. Milita na existência terrestre e dá algumas voltinhas pelo desconhecido. E nossas veias cansadas carregam o nosso medroso e necessário sangue.

Nossas vidas estão intimamente ligadas pelo sentimento que, um dia, ainda nos tornará todos iguais. Irmãos por parte do medo.

Ronaldinho Gaúcho: crônica sobre um reinventor

Queria escrever sobre o talento de Ronaldinho Gaúcho sem precisar fazer uso das metáforas, tão propriedades suas. Jogar fora por alguns instantes o batuque lírico das palavras e descrever com fidelidade iraniana e termos técnicos o que esse moço faz com a bola. Mas pobre de mim, longínquo e atônito observador de lances mágicos do futebol e das letras, ficaria sendo um injusto, um desnecessário e frio sujeito desonesto.

Ronaldinho Gaúcho não precisa da bola para mostrar a sua arte. A bola, descobri, é quem lhe implora para ser tocada, acariciada e conduzida ao retorno da poesia no campo. Antes de chegar aos pés do mulato porto-alegrense, a bola oferece aos outros 21 jogadores seu lado recatado, de menina severa, com ideais e objetivos traçados. Para os outros 21 coadjuvantes, ela permanece a mesma virgem de sempre, a inalcançável, a inseduzível. Quando cai nos pés do camisa 10, suprema perdição, gosta de sentir-se reles, vadia, a mais baixa meretriz. Sim senhores, para ter o prazer de ser tocada pelos apolíneos pés do craque a bola desinventa a moral, a ética e se entrega, deixando sua alma de pássaro deslizar pela grama, em sinal de reverência ao mestre. Ele sabe os caminhos, conhece o olimpo e foi co-inventor do oásis da bola.

Nos pés de Ronaldinho Gaúcho, a bola segue não mais que alegre. Segue reta ou paraboleando, porém soberana, como o sorriso da mãe que acorda com a sensação que o filho morto ressuscitou para lhe pedir a última benção. Ronaldinho é um poeta, não desses simples, que insistem em rimar seu coração de rei com os infortúnios da paixão. Ele é mais que isso, nos seus dez pés, a bola conhece o seu momento de unção. E ela, quase abandona o campo após um gol, um drible, uma finta ou qualquer outra singela invenção. Seria egoísmo continuar a merecer sozinha as elegantes dádivas, mas ao lado do seu amor, a bola tem direito a pelo menos oitenta pecados mortais. Quando Ronaldinho toca a bola são sucessivos orgasmos. O gol necessariamente, não precisa ser realizado. Ele está ali, numa paisagem de sempre, acessível aos gênios e aos medíocres, solidário a todos. A magia, essa sim, é latifúndio de Ronaldinho, sua propriedade, patente celeste. Catalães, brasileiros, marcianos e espíritos desgarrados, vamos celebrar o drible, o deslumbre, o passe. Corramos e gritemos, esvaziemos as nossas gargantas, retirando dela o pó de muitas décadas.

Ronaldinho Gaúcho não dribla: faz a bola percorrer o adversário, desinventando em seu corpo a lei da gravidade. Ronaldinho Gaúcho não dá um passe: fornece uma doação, tal qual a mãe do transplantado. Ronaldinho Gaúcho não marca o gol: ele apenas, num momento de retribuição da bola como mulher que goza, é conduzido ao íntimo estado da gratidão, e como correto cidadão do inexplicável faz também o óbvio, para experimentar a sensação de mortalidade.

Você que completa agora seus dez anos de vida, esqueça seus brinquedos por alguns minutos e se imagine como o mais privilegiado dos torcedores. Aquele que no extremo momento da inocência, viu nascer sob seus olhos, desafiando as leis da possibilidade o absurdo segredo de juntar numa mesma taça os frutos do milagre e do imaginário e deles extrair um impossível vinho.

Você que agora é velho, bem velho, não tente entender se é real ou sonho o que seus olhos enxergam fazer esse moleque. Pense apenas que é algo da sua imaginação delirante, como um cometa que talvez tenha passado, mas que você não tem certeza se viu ou se te contaram.

Você que nasce agora, não chore ao avistar o mundo. É permitido o sorriso, pois num distante gramado um menino pobre e de uma alegria esculpida na face, está operando seus partos, trazendo à luz uma nova forma de vida. Está recatalogando todas as bolas, colocando em seus hexagonais um chip de alma velha. Talvez isso não muda a direção do mundo, não torna as crianças sudanesas mais alimentadas nem resolva a crise do Oriente Médio. Mas deixa menos secas as nossas esperanças e nos faz envelhecer com mais sutileza, não nos deixando esquecer de carregar nossos brinquedos. Talvez a arte de Ronaldinho Gaúcho não vá amenizar as nossas coleções de misérias, mas certamente, como pássaro solidário, pousou em alguma cálida noite sobre os sonhos de algum menino pobre, que um dia num sonho de rebeldia, se imaginou herói ou gigante, só para acabar com o tédio do possível, do previsível, das organizadas coisas do homem comum.

TEXTO PUBLICADO EM 2005, NO SITE INTER.NET, DO QUAL FUI COLUNISTA.

 

MOLHADO DE CHUVA

 

Molhar é encantadoramente triste

É como existir ao contrário

Os passos do caminhante molhado anunciam

Os restos de um mundo guardado

Da possibilidade de acontecer

 

Não há riso preparado nem prenúncio de lágrima

No rosto do homem que molha

Não há sex-appeal nem dor que embala

O que há é apenas ( como a mão do assassino)

A real, a inadiável crucificação do momento

O inútil encantamento de não ser inatingível.

 

28 DE FEVEREIRO DE 2007.

 

 

APÓS A VITÓRIA NOS PÊNALTIS DO MEU FLAMENGO SOBRE O VASCO ONTEM NO MARACANÃ, APÓS EMPATE POR 1 A 1 NO TEMPO NORMAL, RESOLVI SER SOLIDÁRIO AO VASCO DA GAMA. EM VISITA À UMA COMUNIDADE DO CLUBE NO ORKUT, COLHI ALGUNS DEPOIMENTOS DE TORCEDORES, EXPRESSANDO A SUA REVOLTA POR MAIS ESSA HUMILHAÇÃO.

SÓ PARA LEMBRAR, O FLAMENGO CONQUISTOU SEUS ÚLTIMOS CINCO TÍTULOS EM DECISÕES CONTRA O VASCO. AS SEMI-FINAIS QUE OS ELIMINAMOS, RESOLVEMOS NEM CONTABILIZAR MAIS.

EIS OS RELATOS DOS SOFRIDOS TORCEDORES:

 

Estou pagando caro por ter escolhido esse time covarde
Estou pagando muito caro. Já não agüento mais isso!! Todos os vascaínos de coração estão injuriados e chateados!! Isso não é o Vasco. Fora senhor Eurico Miranda. É o senhor que está fazendo meu time desaparecer!!

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Toda vez pro urubu!!!!
É vergonhoso demais!!!!
A pergunta que não quer calar: até quando??????

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Confiança pessoal,um dia a coisa melhora.

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não agüento mais!!!!!
Não agüento mais perder para o Flamerda ( Flamengo em vascainês)  em jogos de decisão, estou de saco cheio, a culpa sem dúvida nenhuma, e daquele senhor que se diz presidente do Vasco (não quero citar o nome deste indivíduo) todo jogo ele faz terror psicológico com os jogadores antes dos jogos, e dá no que sempre acontece, o time todo não consegue jogar tranqüilo, e parece que entra com medo. Só iremos sair desta situação quando pusermos pra fora esse indivíduo!!!!

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Já tenho é vergonha de andar com minha camisa do Vasco.
É sempre a mesma coisa.

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Aff! neguinho tem que parar com essa porra de foi só um jogo !! Foi só um jogo é o cacete! Vasco e Flamengo é um campeonato à parte!! Sempre vai ser um titulo pra nos ganharmos deles! Mas pena que torcedores, jogadores dentre outros não entendem isso!! Isso já virou palhaçada!! Perder 5 finais seguidas e 3 eliminações de semi-final,  aí já é demais!!

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Cara eu num agüento mais ser freguês do flamengo. Sempre perdemos nunca ganhamos e ainda somos zoados. Que merda, maluko! Se for contra o Flamengo eu não vou ter mais nem esperança de ganhar, sempre vamos perder pra eles tenho que reconhecer os cara são fodas mesmo!!!
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Hoje quando cheguei no trabalho ouvi logo piadinhas tipo: hoje o trânsito estava uma maravilha, nem tinha ônibus cheio. Claro, os vascaínos estão com vergonha de sair de casa. É foda.

E outra que ouvi: nem pra vice a gente serve mais. É foda. Não

UM POUCO DE INFÂNCIAS E GIBIS

 

Contrariando o patriotismo geral confesso que sempre preferi os heróis de Walt Disney aos de Maurício de Sousa. Cebolinha? Mônica? Que nada. Sempre preferi as aventuras do trambiqueiro Zé Carioca, do esperto Mickey e do sovina Tio Patinhas. A minha infância foi povoada de revista em quadrinhos. Muitos dos meus amigos colecionavam o produto nacional, o que dificultava o intercâmbio de trocar revistinhas. Sempre achei as histórias da turma da Mônica previsíveis, ingênuas demais e sem cenário. Meu negócio era acompanhar o Mickey em uma de suas cruzadas contra o Bafo de Onça ou o Tio Patinhas, procurando livrar sua Caixa Forte dos terríveis irmãos metralhas.

Quem nunca leu pilhas de revistas em quadrinhos quando criança merece sua infância de volta. Desconfie de um adulto que nunca leu gibi.

Estado norte-americano quer multar roupa íntima à mostra

          Sabe aquela calça de cintura baixa que quando você usa deixa a calcinha à mostra e uma legião de curiosos com os olhos bem atentos? Pois é. O audacioso vestuário está com os dias contados, no conservador estado da Virgínia, nos Estados Unidos. O deputado Algie T. Howell é um inimigo declarado dessa invenção da costuraria  moderna. O insensível parlamentar é o autor do projeto, também conhecido como a “lei da calça caída”. Votada pela Câmara dos Deputados do Estado da Virgínia, a matéria foi aprovada por 60 votos a 34.

         Os parlamentares justificam a medida, dizendo que o hábito, muito popular nos Estados Unidos, estava tornando a sociedade “grosseira”. Se o senado estadual também aprovar a lei, pessoas que estiverem mostrando suas cuecas ou calcinhas podem ser multadas em US$ 50. Não ficou explicado se a medida se estenderá a quem não é adepto do uso de peças íntimas. 

         Utópico, o autor dessas mal traçadas linhas sonha com o dia em que calcinhas e cuecas de todo o mundo serão respeitadas, não precisando mais – tal qual as mulheres iranianas – viver se escondendo sob a ultrajante ditadura dos panos.

 

PÃOZINHO NOSSO DE CADA DIA

Goianésia é conhecida por uma particularidade: é talvez a única cidade do Brasil que ao chegar a uma padaria o cliente tem a necessidade de fazer a fria pergunta: “Tem pão?”. É comum às 09h00 de qualquer dia, em qualquer padaria, o cliente ter que se contentar com rosquinhas ou comer a bolacha que o diabo amassou. Em Goianésia, o cliente que reclama tem sempre razão.

 

CARNAVAL DE RUA DE GOIANÉSIA, O MISTÉRIO

Até hoje me pergunto o porquê das pessoas de Goiânia, Brasília e Anápolis infestarem Goianésia durante o período de carnaval. A cidade não trabalhou um marketing para isso, não contrata nenhuma banda de nome, não dispõe de nenhum rio, cachoeira ou outro presente da natureza, não têm uma rede hoteleira nem de restaurantes satisfatória. Suspeito que em algum momento, todos tramaram ao mesmo tempo e resolveram vir à Goianésia, talvez por uma visão profética ou uma combinação numerólogica. Pior para mim, que odeio carnaval e seus afluentes.

 

 

LAN-HOUSES DE GOIANÉSIA

Há uma determinação do juizado da Infância e Juventude de Goianésia, que proíbe o funcionamento de lan-houses localizadas a pelo menos 200 metros de uma escola. Se for cumprida essa determinação, é preciso fechar quase todos os estabelecimentos do gênero. Para quem observar, há lan-houses perto dos seguintes colégios: Jales Machado, José Carrilho, Laurentino Martins, Escola da Igreja Presbiteriana, Monte Moriá, Salvador Leite, entre outros que me fogem agora da memória. Isso sem contar que o próprio Telecentro fica a poucos metros da Escola Luiz Gonzaga Sobrinho.

Se estivesse vivo, o Grupo Teatral Criações (GTC) completaria em 2007 dez anos de vida. Extinto em 2000, o grupo deixou muitas saudades nos amantes do teatro na cidade. Apesar da pouca estrutura e até da ausência de uma casa oficial, o GTC foi a maior expressão cultural do final dos 90 em Goianésia. Com um grupo de atores maravilhosos, a trupe comandada pelo talentoso Wesley Marcelino marcou história e influenciou toda uma geração de aspirantes aos palcos na cidade. Para falar desses tempos áureos e de sua relação com o teatro e a arte, conversei por e-mail com o símbolo do teatro de Goianésia. Wesley Marcelino, 32 anos, professor, morador de Uberlândia-MG, evangélico, uma personalidade que deixou boas recordações. Na entrevista, ele deixa claro a sua mágoa com a falta de reconhecimento na sua cidade do coração.  Palco:

Dez anos se passaram desde que foi fundado o Grupo Teatral Criações, o GTC. Que recordações guarda daquela época?

Foi um momento ímpar em muitas vidas e na minha, sobretudo. Foi um momento em que havia um grupo de amigos que estava sem muita coisa para fazer e aí resolveu se unir em prol de um bem comum: a arte! Foi uma época em que não medíamos esforços para sair de casa todas as noites para ensaiar no salão da Igreja Católica. Crescemos, fizemos o grupo crescer e ser conhecido. E nos divertimos muito.

Quanto tempo durou o GTC?

Oficialmente de meados de 1997 até meados de 2000, quando me mudei para Caldas Novas, para estudar. Alguns membros tentaram continuar de toda forma, mas muitos desistiram ou mudaram de cidade.

O GTC tinha um líder?

Eu era o “chefe”. Assim era chamado pelos membros. Com muito carinho, claro. Mas havia pessoas que desempenhavam funções específicas como sonoplastia, iluminação, cenário, figurino.

Quem era a trupe?

Muita gente passou por lá. Na primeira turma havia: Wasila, Aleandro, José Wesley, Gisele, Graziele, Mabel, André David, Rauley, Roselita. Depois veio a outra safra: Cristiane, Kely, Rosinha Sonoplasta, Paulinha, Fabiana Mourato, que batizei de Fabiana Brazil, Edinho, João Paulo, Sarita, Éder, nossa foi gente demais.

Você também dirigia e produzia as peças?

Sim. Mas a Fabiana Brazil era meu braço direito.  Acho que ela nem usa mais o “Brazil”, é uma pena, é a cara dela. Assim que começamos ensaiávamos todos os dias, de segunda a domingo. Tínhamos os ensaios, criação e montagem dos cenários. Sempre éramos convidados para criar algum espetáculo de última hora. Então era na base do improviso e sem modéstia, os meninos eram bons nisso.

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