NOVO RENOVO

 

Coração quer

Experimentar de novo o novo

Que quer ser um novo experimento.

 

Matéria incolor

Invento experimento excremento

Sabendo-se de novo

O novo método.

 

Coração em pires

Sensação de palestino nu

Entre todas as paredes de Judá

Produz agora o novo

Que de tão

Sentirá ser sempre o único

A se renovar.

 

E restará apenas uma dobra

Experimenta novas e outras

Que se renovam

Haverá mesmo assim

Um novo começo que por querer

Ser sempre de novo

Inventará a milagrosa forma

De converter-se em ovo

E desnascer para sempre.

 

 

 

DETALHES DE UM PÔR DO SOL

 

            Não consigo precisar onde vi este título. Sei que foi de um livro. Desejo que a obra tenha vendido bem e que o seu autor esteja feliz e gozando de boa saúde. Quem reflete sobre as minúcias de um pôr do sol tem coração nobre e merece de mim, no mínimo, sentidas considerações.      

            Coisa interessante é como, na correria insana e necessária do cotidiano, não nos atentamos para a simplicidade de um pôr do sol. Por ser um evento diário e acessível a todos, esse ungido instante que separa o dia da noite acaba tornando-se nada mais do que restos de uma jornada ou, na mais poética hipótese, trapos intermediários para nos distrair, enquanto esperamos a chegada da noite, com seus recreios e sua mansidão, quase um aconchego calmo.

            Como sou um metafísico animal sensível, aproveito para registrar que covardemente tenho assistido a poucos, pouquíssimos espetáculos do pôr do sol. Às vezes não tenha tido tempo de achar bela essa nova cor que gruda na paisagem e, em rápidos minutos se desmancha, alertando-nos para uma nova realidade. Durante um pôr do sol não se faz nem se desfaz planos. O tempo para projetos é insuficiente e a alma acha desperdício gastar aquela breve eternidade pensando o que podemos ser. É no exato momento do crepúsculo o momento da imortalidade, de sermos o melhor de nós, fortes como o último sonho da véspera.

            Os namorados falam pouco sobre o pôr do sol. Temem ser traídos pela beleza soberana do momento. Cada minuto do pôr do sol carrega uma nova forma de sentir esperança. Dá à liberdade convencional uma outra forma de sentido. Mora aí o medo dos namorados: o de serem eternizados naquele momento, serem chamados para uma manjedoura celeste, onde o beijo humano conhece uma hierarquia superior de sensações e fica desnecessário.

            É feliz a cidade que possui um lago, um sereno e grande lago, onde o pôr do sol pode, depois de ofertar alento às almas aflitas, ir dormindo devagar, tão devagar que chega a parecer que é por obra de alguma forma de perenidade, algo permanente da paisagem. O sol de põe não como algo que morre ou se despede. Põe-se como um guerreiro recolhendo sua espada no último dia da guerra.

            Durante um pôr do sol não há divisão de homens. Todos eles são apenas um. Não há o discernimento pela cor das tantas peles que inventamos para justificar a nossa necessidade de tribunal. Não há lei que impeça o pôr do sol de ser para os fortes o momento da dúvida e para os fracos o tímido fiapo de crença no amanhã.

            Confesso que não sou exatamente um colecionador de momentos ao pôr do sol. Tenho apenas um coração eternamente em crepúsculo. Um coração que sonha com uma humanidade que peregrine ao menos uma vez na vida a uma imaginária montanha, para assistir com calma e sem pretensão de entendimento, ao mais simples pôr do sol. Confesso, e não temo por isso, que sonho em me despedir desta matéria humana no mais exato instante de divisão entre o dia e a noite. No mais exato momento em que se misturam o claro e o escuro, fundem-se as verdades e, por milagre diário do crepúsculo, nascem cheias de vida novas formas de esperança.

 

PRENÚNCIO DE UMA CALVÍCIE INDESEJADA

 

         Possivelmente esta será uma das últimas crônicas da minha fase cabeluda. A partir de talvez cinco, dez, ou supremo milagre, 15 textos, já serei integrante do grupo dos escritores calvos. Acontece que as forças da natureza querem tornar-me um homem careca. Isso não seria um grave problema.  Suponho haver vida pós-cabelo. O que tira o sono deste abrupto ser que relata é que toda a vida me preparei para ser um homem com cabelos. Nos meus sonhos de menino, eu me imaginava um potente senhor de negócios e grisalho. Um burocrata gordo e grisalho. Um escritor míope e grisalho. Em todas as possibilidades o que havia de comum era uma existência capilar. A vantagem de ser careca é que com essa condição a pessoa consegue com mais facilidade o cargo de conselheiro de um clube de futebol ou gerente de banco. Confesso que nunca desejei essas atribuições.

Segundo apurei, 40 milhões de brasileiros sofrem de calvície. É um número considerável. Significa que há mais calvos no Brasil do que flamenguistas. Mais calvos do que protestantes da Igreja Universal. Entrarei para uma classe com alta representatividade no Congresso Nacional. Há alguns anos li uma matéria em que um nobre senador havia proibido os câmeras da TV Senado de o filmarem de cima para baixo. Segundo ele, este ângulo lhe conferia um ar de homem careca. Ao passo, que a tomada por baixo valorizaria outros atributos do congressista. Conclusão: para aquele senador, ser careca é apenas um ponto de vista. Desejo profundamente ter essa mesma tática para escapulir deste martírio que se anuncia.

         Pior do que estar prestes a tornar-me um indivíduo calvo é já carregar a fama de ser um e ter que fugir sempre das rodinhas de piadas quando o assunto é qualquer coisa ligada ao couro cabeludo. Estou perdendo os cabelos mas a dignidade ainda está comigo, grudada como uma última vacina, uma imaginária semente capilar.

         Naturalmente, eu não teria grandes dificuldades em ser um homem calvo e, até careca       . Uma coisa que passei a observar neste meu calvário é que mesmo sem estatísticas oficiais a respeito há mais calvos e carecas entre os ricos da nação do que entre os pobres. Normalmente, cabelos e investimentos financeiros não são uma combinação muito corrente no mercado. Pior para mim, que como não tenho vocação para ser rico, terei que me marginalizar entre os pobres, porém encabelados cidadãos. Serei uma espécie de agente da burguesia infiltrado entre os homens de cobertura capilar. Possivelmente deixarei de ser convidado para alguma reunião por este ultraje da natureza.

         O diabo é que um implante fica dispendioso. Passarei a colecionar catálogos de clínicas especializadas nesse milagre ou investirei meus rendimentos em altas dosagens de finasterida. No único deslize na adolescência sobre a remota probabilidade de tornar-me careca, sempre deixei claro a minha preferência por aquele tipo de calvície que começa no meio da cabeça e vai devastando os pêlos como um incêndio. Com essa tática, eu ganharia tempo para preparar-me psicologicamente para essa nova etapa da minha vida. A decisão genética de ficar sem cabelos é mais grave do que a escolha do time de futebol, da religião ou da esposa.

         Os egípcios antigos lutaram de todas as formas contra esse mal. Eles acreditavam que a mistura de pata de cachorro com casco de asno resolveria o problema. Não resolveu. Insistentes, eles tentaram uma fórmula com gordura de leão, hipopótamo, crocodilo, ganso, cobra e cabrito montês. Acredito que eles perdiam mais os cabelos bolando novas fórmulas do que propriamente pelo curso natural e cruel da vida. De qualquer forma, eles merecem todo o meu apreço pela batalha. Quanto a mim, encarno o vilão de meu próprio destino, não me oferecendo para nenhuma guerra para reverter esse mal que está com os famintos dentes e uma serra elétrica na mão para lançar fora o meu escalpo.

         Acontece que não satisfeita com a minha já calamitosa condição, uma médica paulista concluiu que nós, homens calvos, temos 50% de chances a mais de desenvolver câncer de próstata. Não convém aqui explicar os motivos que nos tornam mais atraentes para o câncer de próstata. Mas de uma coisa eu desconfio: há um complô contra a nossa classe. Houvesse em mim crença numa vida anterior, concluiria que os carecas de hoje foram os vilões de ontem. A calvície é o meu inferno particular, a minha forma de não corresponder à evolução espiritual dos invidíduos, a minha maneira de ser humilde e pequeno.

 

 

HOMEM COISIFICADO

 

Poeta, lesado entre lobos e canções de amor

Bicho estranho ocupado demais para sentir

Há um infinito bater de asas que o incomoda

Quer ver a liberdade, mas tem medo de altura.

 

Conhece o chão e nele oferta um maço de beijos

É elegante ladrão que chefia a dor alheia em grandes pacotes

Menino prensado em uma cega máquina de silêncio

Espia a noite e deseja sumir romper com a sombra

Sem ter que matar a nobre matéria, precisa da capa.

 

Homenzinho, constrói sua torre e esquece sempre a escada

É pequeno, ele acredita que um dia cresce, acredita-se menino.

O cotidiano bate à porta e não há uma mão que o acolha

A realidade bate o sonho, sem piedade distribui uma amarga senha.

Sem entusiasmo e sem caninos, o poeta recolhe seu desejo e sai

Suspira por um mísero instante de beijo, mesmo de consolação,

Quedado, reconhece nos olhos da morte sua redenção e sina

Como sentenciado convicto, ganha o corredor do distante porvir.

 

RIO DE JANEIROS

 

Eu sou baiano da Baía de Guanabara

Nunca fui ao Rio mas não sou o primeiro

Meca do prazer de sempre a janeiro

Mengão carnaval alegria que o povo ampara

 

Cristo posto olhos atentos e ausentes

Procurando o motivo do samba enredo

Balas e meninas perdidas embaladas para presentes

No palácio da favela Maria faz carinho no medo

 

Papai noel rosa nunca sobe as chaminés do morro

Fica entalado na boca do fumo e solta um pigarro

Na avenida batman, mulher-maravilha e um zorro

Que trocou sua espada por um maço de cigarro

 

Em Ipanema o menino do rio busca a onda do mar

Ausente onda do adeus do rio daquele menino

Sonha em segredo uma máquina que garanta o destino

Na orla mamãe recolhe o corpo e ensaia uma canção de ninar.

 

cai o caos

 

Carretel de idéias cegas recoladas

sobras e cobras fingindo novas dobras

dói mas remói e desinventa-se

no ato a corda que enforca

 

suspenso baú de ovos estéreis

sonhando o impossível de sempre

um impossível com concessões

 

meu manual de pequenas necessidades

fornece a senha da cor da pele da sua raça humana

saias dentes e uma serpente empaladas de presente

para o abominável inquisidor de pequenas almas

dono da catequese que necessita prato

lobo asteca forjando uma corrente de fezes

 

corpo posto fixo em uma sentinela fiada na máscara do longe

caiçara estúpido com uma faca que imola todo avesso

suas chaves no molho indicam o ausente espetáculo do adeus

beijo de lábios fechados costume monarca do cerco à febre que sacia

horizonte com portões esconde  uma alma gentil prisioneira de todos os lados

severas leis que despertam um cadáver guardião adiado da dor

 

lança pois o grito migalha exata do indivíduo

nua verdade alimento tardio dos que sonham em cavernas

lança pois a esperança excremento valioso do caminhante

adubo selvagem máquina relógio de se atrasar o abate

lança pois a alma com as mãos suspensas vaidade da redenção

ilusório desenho entregue rebento em posição de descanso

 

bicho homem com sua crua ferida morrendo anátema da luz

desfia o destino e recolhe seu resto de olhos

ergue sua babilônia com macacos na torre

guardando ossos e úteros recolhidos pelo chão

 

com seu maço de dentes engole a sua última goma

soldado honesto guarda seu canhão com rosas de ontem

desfila seu hino punhal triste aparelho de se falar

vê a morte no nó e lança seu medo em tigelas vazias

finge um espelho enquanto a política e o café moldam sua distante face

cerca teu riso em pacotes e sonha com o esperado lírio da despedida

 

dorme em uma cidade cercada com sua esperança abatida na véspera

segue as caravanas com seu festejo embutido na dor

faz figa come seu incesto e seu fumo

 

untado em sua cela seu único cavalo entrecorta e desvenda o aviso

germina o caos satisfatória certeza do nada

 

 

PASSANTE

 

Quis sonhar nu poema

Uma outra idéia de braço

Que não mova nem cegue em mim o momento

Desesperado tenor que inaugura o aplauso

 

Olho por olho

Rajadas de néon encomendadas no camelô

Armaram um altar e formas de ataques

Para cercar meu coração que dorme

Ao som e ao silêncio de uma canção desocupada

 

Menina na forma de outra qualquer maria

Carrega vontades e apela em segredo uma oração

Envolto em caixas de fraldas encaixo em Freud

Meu suplício minha última prece o indulto do defunto

 

Cai a noite e nela converto-me em corpo de braile

Estudo o som e a água mas falta-me a necessidade de irmãos

Minha mão repele o farto abraço

Meu banquete é servido diet sem beijos e com a língua

Sendo a severa guardiã de seu único idioma

 

Espio a morte que dorme sem brado e sem glória

Concedo-lhe sem entusiasmo meu apoio e minha fé

Mas ela exerce uma espécie de férias sobre mim

Roendo seu resto a dor empala na minha alma o silêncio da paisagem.

 

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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANESIA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Arte e cultura, Esportes
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