
GÊNESI
Sou feito de dois avessos
Língua muda da necessidade de beijo
Um ser que se move
Que rompe a dentadas a idéia de útero
Que enfrenta o mundo com sua afeição
E seu certeiro abraço de amputado.
26 de janeiro de 2007.
IMPRESSÕES SOBRE ADRIANA CALCANHOTO
Acho que a música é uma das maiores invenções (humanas?) a serviço do homem. Acredito que a existência sem a música seria chata, inaceitavelmente tediosa. Acho até que todos mereceríamos trilha sonora para os nossos momentos de paixão, de medo, de dor, de encantamento, de vazio até.
O que para mim funciona diferente da maioria das pessoas no tocante à música é o efeito. Talvez a imensa massa curte música alegre, agitada. Para mim, a canção é necessariamente emoção, sensibilidade, tremor. Sou viciado em música triste, melancólica, depressiva. Talvez reside aí a minha paixão pela musicalidade de Adriana Calcanhoto. Para mim, essa gaúcha miudinha consegue impor em suas letras submissas, melodias tristes e voz melancólica, a verdadeira função da música em minha alma. Ela tem a senha para o meu encantamento.
Quando estou triste poucas coisas conseguem me consolar mais do que suas canções sofredoras. Acho a tristeza uma coisa muito séria, para ser respeitada assim como a alegria. Cada qual tem os seus momentos de verdade. Não merecem ser interrompidas abruptamente. Gosto da sensação de prolongamento da minha necessária melancolia. E nisso Adriana Calcanhoto é uma droga eficaz. Ser feliz é ouvir a música de Adriana Calcanhoto taradamente nos momentos de tristeza, de recolhimento, de ser em intervalo.

IMPRESSÃO SOBRE O CHATO
Confesso que não suporto o chato. Não tenho vocação para o sujeito puxa-saco, baba-ovo, essa classe que vende a alma para agradar ao patrão. Estou escrevendo este depoimento ouvindo Cazuza, a voz que meus ouvidos melhor reconhecem. Tenho grande dificuldade em ser social, bem-comportado, convencional. Desprezo o sorriso-fotografia, o sorriso-recepcionista, o sorriso-profissional. Acho uma desonestidade sem tamanho o cidadão à paisana ter que seguir cartilhas de conduta para agradar a quem quer que seja. Não consigo ser operário, pau-mandado 24 horas por dia. No meu horário de trabalho posso ser o mais doce e alegre cãozinho. Agora no meu expediente de vagabundagem sou meu próprio patrão. Não devo satisfações. Não morro de amores por gente falsa. Não freqüento reuniões sociais para marcar ponto com aquele contato importante. Ele que se dane. Sem uniforme, não corrijo postura, não manejo o talher como espadachim, sento à mesa ( ou não) e como feito um faminto, um selvagem, coço o nariz e faço piadas desagradáveis. Anda de cueca pela casa e se assim preferir coloco o lixo pra fora.
Amo as pessoas. Todas elas. Mas isso não significa necessariamente que tolero quando elas invadem o espaço que marquei como meu somente. Tenho necessidade de muros, cercas e redomas. Sou aquele cara que costuma observar tudo de perto, mas escondido na moita, sem ser visto. Abraço as pessoas, mas só quando eu quero. Tenho uma tara cruel pelo meu pequeno latifúndio de solidão, os meus momentos da verdade, quando libero o meu animal selvagem, quando passeio com a minha besta-fera. Imagino mil vidas e civilizações, faço planos e traço metas, crio textos e sinto a arte entre as veias.
Não tenho muitos amigos. Por opção. Não acredito que eu tenha condições de cultivar assim tantos laços. Nunca fui à casa do meu melhor amigo, que morava há anos em frente à minha casa. Possivelmente nunca irei. Mas por que iria, se nos encontramos sempre, nos amamos e não há em mim maior ambição que essa? Acho um luxo esse negócio de msn, e-mail. O mundo virtual me possibilita ser mais próximo das pessoas do meu jeito. Da maioria das pessoas que gosto, não almejo presença física. Eles podem existir ali mesmo, naquele cantinho virtual, sob meu controle por toda a eternidade. Quando não estou a fim, bloqueio e não estou. Quando estou encantado, os freqüento da minha própria sala e coçando o nariz, elegantemente.
Sou assim, um sujeito anti-social, um bicho escroto, que ama a humanidade, mas é seletivo quanto ao próximo, esse animal distante citado pela Bíblia.

Chama
Vem é hora
Meu bem
De ir embora também
É ante-hora
De querer-te bem.
Vai
Sonhar
Que o momento é de amar
Ah! Que tormento
O mar brigou com o vento.
Amor
Não há dor
Nos olhos de quem ama
Há apenas uma chama
Que te chama
De meu amor.
Amor
Não há hora
Tudo é agora
Amar é olhar
É molhar a alma
E mostrar calma.
É ser feliz na jaula
É estar distraído na aula.
( Tentativa de letra de música de 2002)
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