SOBRE A NOITE, AVIÕES

 

         Sou um cidadão que ama com suave eloqüência a noite. Nunca fui um partidário dos dias ensolarados. Sempre preferi os nublados. Acho a tarde um tanto melancólica e, no caso da tarde brasileira, anti-romântica. Sou um cidadão noturno, não desses que se embriagam com o pólen das concessões que o período produz em larga escala. Sou um boêmio doméstico e abstêmio. Proporciona-me imenso prazer o clima brando e o silêncio de faca que emanam da noite. É durante a noite que as almas vão a bailes e sentem-se livres para segredar.

         Numa noite dessas, deparei com um carrossel de estrelas. Reside nelas segredos que apenas eu e a minha amada Beliane partilhamos. Entre as luzes estelares, surgiu, partindo o céu em metáfora algo não tão sublime, embora que sereno. Um avião observado de longe sabe ser sereno e sutil. Tem o dom de encantar. Em nada se parece com o avião que parte ou que chega. A grande graça do avião é o seu momento de vôo, quando ele é inalcançável e místico. É este o momento da verdade para o avião.

         Confesso que quase sonhei em um dia estar a bordo. Eu e a minha amada, a caminho de alguma deserta civilização, onde homens, mulheres e cegonhas possam discutir ao som dos Beatles e observar uma coreografia de borboletas. Re-confesso, e com rápida timidez, que ainda não sou muito afeito a voar. As minhas asas devem ter sido podadas no mesmo instante que os meus cordões umbilicais. O meu fascínio pela ave de metal é meramente visual. Cada qual fazendo a sua função. Ele, a de voar e transportar destinos. Eu, a de humilde observador, oferecendo meu apoio moral.

         Por alguns instantes fui dono de uma beleza descomunal. Possuí dentro do meu quintal aquela paisagem de estrelas e o avião, a desfilar dentro do meu campo visual, como um objeto obediente ao gosto de seu dono. Não julgava haver pessoas dentro dele. Para mim, era apenas um avião e,  santa imaginação, era meu, só meu. O meu sentido de propriedade não era latifundiário. A minha posse despertou em mim o dom de partilhar com as estrelas e com as almas desencontradas aquele singelo brinquedo.

         Anima-me a idéia de imaginar que não estou sozinho dentro da minha noite. E ao crer que sobre a minha ecumênica cabeça estão pessoas, em algumas ocasiões, de diferentes nacionalidades, credos e instintos. Conforta-me a idéia de que lá em cima, do plástico e vertical horizonte noturno há um croata ou um macedônio indivíduo que olha para baixo e vê apenas uma escuridão, mas dentro dela imagina que há alguém sendo solidário com a sua vida. Imagina que há um ser humano, que ainda se encanta com a simplicidade dessa aérea aventura. Encanta-se que quase chora e quase deseja poder abraçar no peito esses irmãos.

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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANESIA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Arte e cultura, Esportes
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